09 julho, 2013

Crítica: Vai que Cola, nova série do Multishow

 
“A gente busca o popular”, diz Guilherme Zattar, diretor-geral do Multishow em uma matéria do Estadão. Na estreia de Vai que Cola, nova série de humor do canal a cabo, isso ficou bem claro. Estreou ontem a nova aposta da emissora reconhecida como um pulsante caldeirão do humor. O problema é que ao “buscar o popular”, Vai que Cola mirou em Sai de Baixo e acertou no Zorra Total.
 

É difícil julgar um projeto apenas pelo seu primeiro episódio, mas se partirmos do princípio que é ele que, teoricamente, dá a tônica do enredo, a grande promessa do Multishow é na verdade um engodo. Gravado no formato de teatro televisionado, o programa é centrado na pensão da dona Jô, vivida por uma desprovida de carisma Catarina Abdala. É em seu estabelecimento que o empresário corrupto Valdomiro Lacerda (Paulo Gustavo, a atual Galinha dos Ovos de Ouro do Multishow) vai parar depois de fugir de um escândalo envolvendo o desvio de dinheiro de sua antiga empresa.
 

Catarina Abdala como D. Jô contracena com Ivete Sangalo, uma das muitas convidadas dos 40 episódios da primeira temporada, que ainda inclui o cantor Naldo e a socialite Narcisa Tamborindeguy

 
O personagem quase esbarra no intocável Caco Antibes de Miguel Falabella com seu horror à pobreza e sua resistência a entender o novo padrão de vida (do Leblon para o Méier, onde fica a pensão e reconhecido bairro carioca da classe média), mas Paulo Gustavo é inteligente o suficiente para saber que um cânone do humor não se imita e consegue resgatá-lo antes de cair numa cópia paraguaia.
Ainda assim, Paulo Gustavo não consegue sozinho fazer rir como em seu sempre agradável 220 Volts. Ao elenco, tão heterogêneo e desconexo, falta algo, uma química, uma cumplicidade gostosa de assistir. É impossível não lembrar do entrosamento de Sai de Baixo, Tapas & Beijos e de tantas outras sitcoms que se alicerçam na cumplicidade de seus protagonistas, ainda que ela esteja apenas em frente às câmeras, como em A Grande Família. 

Sintonia no Instagram, desencontro no palco. Falta conseguir trazer
a naturalidade da vida real para a dinâmica no ar
 
Individualmente, a interpretação dos atores não é das piores, mas aí que está o problema. Parece que o grupo é um amontoado de humoristas de stand up que brilham sozinhos, mas que falta algo quando precisam construir a risada juntos.
A caricatura de Cacau Protásio para Terezinha, a viúva de um bicheiro, merece reconhecimento. A ex-Zezé, de Avenida Brasil, não teve seu contrato renovado pela Globo e foi sabiamente abocanhada pelo Multishow. Os exageros de Terezinha tingem de louro oxigenado (como será visto pela cabeleira dela nos próximos episódios) a figura da nova rica kitsch, uma Val Marchiori que não deu certo. Seus arroubos sexuais bebem da mesma fonte ninfomaníaca na qual Copélia, de Toma Lá, Dá Cá, se banhava. De maneira distante, é verdade, mas suficiente para provocar algumas situações engraçadas. É de Terezinha, inclusive, a explicação para a presença decorativa, e quase muda, de Fiorella Mattheis (?) no elenco, como uma tcheca – piadas prontas à exaustão – que está sempre de biquíni. “Sabe como é esse povo gringo, gosta de ficar sempre fresquinho”.
A Samantha Schmutz e Emiliano D’Avila foi dada a ingrata tarefa de protagonizar o casal Jéssica, uma “oportunista” (como ela mesma se descreve) que lembra o mau-caratismo de Isadora, de Toma Lá, Dá Cá, e um abobalhado Máicol, que faz às vezes de uma Magda às avessas. É esse excessivo uso de arquétipos humorísticos de sitcoms brasileiras que deixa Vai que Cola morno. Talvez uma exceção seja Ferdinando (o insolente assistente de Paulo Gustavo em 220 Volts, Marcus Majella). Como o conciérge da pensão, ele faz um Ribamar com delírios de grandeza. É a confiança na própria importância e seus ataques afetados de estrelismo que trazem uma figura pouco explorada nas séries brasileiras, a do personagem gay.
 
Samantha Schumutz, Cacau Protásio e Fiorella Matthise. Esperança
de que a série desenrole
Talvez fossem as grandes expetativas criadas em torno da estreia e ao peso do nome de Rosana Hermann na lista de autores (ela, vale lembrar, antiga escritora do próprio Sai de Baixo), mas Vai que Cola fica muito aquém de outros programas de humor da casa, como o próprio 220 Volts, ou o saudoso Adorável Psicose em seus dias de glória, ou ainda o despretensioso Meu Passado Me Condena, do Fábio Porchat.
É preciso reconhecer que a tentativa audaciosa de trabalhar com um palco giratório que comporte diversos ambientes e permite ao telespectador caminhar pela pensão da dona Jô é interessante, mas o resultado de sequências rápidas de personagens que estão entre um cômodo e outro é mais vertiginoso do que benéfico. Não chega a ser tão desagradável, é claro, quanto as abomináveis quebras de fluxo causadas pelas pausas pré-estabelecidas e inseridas (pelo roteiro ou pelos próprios atores) para as piadas prontas.
Fernando Caruso, que interpreta Wilson, um débil faz-tudo, chega a fazer piada da própria piada em uma das cenas de estreia. O personagem de Paulo Gustavo está dando conselhos de paquera para Wilson, que solta um “Você entende mesmo de mulher. Até parece que viveu muitas delas em outra vida”. Seguida à sofrível tentativa de gracejo fazendo referência aos diversos personagens femininos do humorista, um silêncio à espera de gargalhadas se segue, conseguindo, no máximo, alguns ruidosos sorrisos amarelos da plateia. Percebendo o fiasco, Caruso emenda “Essa demora um pouquinho pra eles entenderem”, dando a deixa para Paulo Gustavo continuar: “Não, a piada que é ruim mesmo”. Talvez esteja aí a verdadeira piada.
 
Jack na reunião de apresentação de Vai que Cola na NBC
*Por (um azedo) Thiago Rizan

 
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