Sobre baratas e pombos…

René Magritte - Le Faux Miroir

 

 

Ciranda a cirandinha
da Higienópolis que higieniza
a escolha, o corpo, a existência
pintada em um lindo horizonte alaranjado-bolha-de-morte-escapamental.

A troca de afeto homossexual agoniza
entre olhos e placas que limpam
a sujeira de ser quem simplesmente se é.

Por aqui, por lá, assim, recomece
escritos na bula do anestésico que faz seguir.
Confronta o famigerado “e se?”, tão intrínseco e cancerígeno.
Câncer cura? Será? Mas e se o câncer não for câncer?
Pára.

Mais um emplastro, doutor!

Ciranda a cirandinha
um pouco mais rápida, por favor!
Ainda vejo… mais rápido!
Pausa.

Já não sinto.

Toda a terra foi limpa da sola do sapato.
Toda a terra foi limpa da terra.

Não foi.

O espírito ainda come o que sobra do mundo.
Milho? Deixemos pro século XVIII.
Resto, sobra, sujeira
sujeira da barata que se arrasta
em uma longa caminhada deserto afora
deserto cinza, moderno, o futuro.
E arrasta consigo um parentesco já constatado e esquecido.
Mas, ainda assim, um vínculo com o começo de tudo. De nós. Ahhhh, e se…?
Pára.

Um Raid e um punhado de bolinhas de chumbo, por favor. Pra viagem.
Moro na Higienópolis, do deserto cinza de interrogações.

 

 

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