Resistência trans na Satyrianas 2016

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Além de Phedra de Córdoba como homenageada principal do evento, o desfile também reverenciou o legado de maravilhosa Elke, madrinha dos desviantes

Na cidade do Doria, dentro do Estado do Alckmin, sob a tutela de Temer, o chão da praça Roosevelt, em São Paulo, rachou na noite de ontem, 14. E das fissuras do submundo, brotaram sujeitos híbridos incendiados pela resistência. Leonas, Dannas, Amaras, Betanias, trans, travas, putas… Uma surra de mulheres donas do próprio sexo e do próprio gênero tacaram fogo em um desfile-performance da marca Daspu. A ação fez parte da programação cultural Satyrianas 2016 e trouxe à superfície desviantes dispostos a trincar a heteronormatividade.

Se alguém tinha dúvidas de que os subalternos falam, bom, saibam que eles berram. Fazem de seus corpos abjetos o lugar de fala para performarem um discurso atravessado por referências diabólicas, sensuais, das ruas e dos guetos. Como o bobo da corte nas histórias medievais e a dama pantomímica no século XIX, que zombam da cara do rei e da sociedade sem que eles percebam, as mulheres do desfile da Daspu atraíram a plateia para um jogo de espelhos. Seduzidos por seus movimentos sinuosos e deslumbrados pelo brilho, nem percebíamos estarmos de frente para o reflexo de nossas pretensas verdades sobre sexualidade e gênero.

O espaço para tal confronto não poderia ter sido mais propício: da praça que serviu de casa para a atriz cubana Phedra de Córdoba, homenageada desta edição do evento, ninguém sai. Nem dali, nem daqui, nem de cada canto dessa cidade, desse estado, desse país. Ao lado de um posto da polícia militar, símbolo da força do Estado, as trans e putas mostraram que o poder quem carrega mesmo são elas, donas de si e da coragem para desviar do que é imposto. Prontas pro combate, elas se posicionam estoicas e heroicas para enfrentar a onda de repressão que se forma no horizonte.

Resistamos todes, sob o olhar severo do conservadorismo, ao som d’As Bahias e da Cozinha Mineira e de uma plateia que exalta o desviante com gritos de  “maravilhosas”, “lindas” e “poderosas”. Nem que para isso seja preciso gritar, e berrar, e esfregar a pepeca no chão.

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